O presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF), Edvandir Paiva, elogiou, em entrevista à CNN, nesta segunda-feira (27), a escolha do atual diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem, para ser novo diretor-geral da PF, mas afirmou que as circunstâncias da saída de Maurício Valeixo do comando da PF geram desconfiança para quem assumir o cargo.

“Ramagem é tido internamente como um bom profissional, mas a questão é que, mesmo um bom profissional, seja ele quem for, se ele entrar neste contexto, entra sob sensação de desconfiança da sociedade e dos delegados”, defendeu Paiva.

Segundo ele, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) deveria deixar claro, publicamente, que não há intenção de interferir na PF. “O que nós propomos ao presidente da República é que ele faça um declaração pública de isenção da PF, de que o governo não pretende fazer nenhum tipo de pressão e de que essa mudança não é para controlar nada na PF. Acho que a palavra do presidente tem força e a declaração vai trazer uma sensação melhor para distensionar qualquer tipo de confusão, tanto interna quanto externa”, sugeriu.

Questionado sobre a escolha do advogado e major da reserva da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) Jorge Antônio de Oliveira Francisco para o Ministério da Justiça, segundo apurou a analista de política da CNN Basília Rodrigues, Paiva disse que “é um nome que estava já sendo ventilado”, que ainda não é conhecido da ADPF, mas que estão “abertos ao diálogo” com ele.

As declarações foram feitas após a ADPF publicar carta afirmando que uma crise de confiança foi instalada internamente na instituição e também entre a sociedade e a Polícia Federal (PF).

Bolsonaro escolheu o atual diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para comandar a Polícia Federal, substituindo Maurício Valeixo, exonerado na manhã de sexta-feira (24), em decisão que provocou o pedido de demissão do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro.

Interferência política

Durante o anúncio do seu pedido de demissão, Moro acusou o presidente de desejar interferir politicamente no trabalho da Polícia Federal, dizendo que Bolsonaro gostaria de ter uma relação mais próxima com as pessoas nomeadas para a entidade, como alguém que “que ele pudesse ligar, que ele pudesse colher informações, que ele pudesse recolher relatórios de inteligência”. “Eu disse que seria uma interferência política. Ele disse que era mesmo”.

Em resposta ao ex-ministro, Bolsonaro afirmou que não pediu para acessar investigações nem para a proteção de pessoas e que sua intenção era ter uma pessoa mais próxima para receber informações periódicas. Ele também cobrou o andamento da investigação a respeito da facada que sofreu quando ainda era candidato à Presidência, em 2018.